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Atividades de Retextualização

 

18/12/2009

Autor e Coautor(es)
Igor Caixeta Trindade Guimarães
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BELO HORIZONTE - MG ESCOLA DE EDUCACAO BASICA E PROFISSIONAL DA UFMG - CENTRO PEDAGOGICO

Prof. Dr. Luiz Prazeres

Estrutura Curricular
Modalidade / Nível de Ensino Componente Curricular Tema
Educação de Jovens e Adultos - 2º ciclo Língua Portuguesa Linguagem escrita: leitura e produção de textos
Ensino Médio Língua Portuguesa Aspectos cognitivo-conceituais: mundo, objetos, seres, fatos, fenômenos e suas inter-relações
Ensino Médio Língua Portuguesa Relações sociopragmáticas e discursivas
Ensino Médio Língua Portuguesa Gêneros discursivos e textuais: narrativo, argumentativo, descritivo, injuntivo, dialogal
Dados da Aula
O que o aluno poderá aprender com esta aula

Nesta sequência didática, os alunos poderão desenvolver a habilidade de escrever textos a partir de outros textos, com vistas a efetuar modificações no gênero, no discurso, no conteúdo comunicativo, no registro etc.

Duração das atividades
Em média, quatro aulas de 50 minutos.
Conhecimentos prévios trabalhados pelo professor com o aluno

Para a realização desta aula, é necessário que os alunos tenham alguma familiaridade com os gêneros textuais da mídia impressa, dentre os quais destacamos a notícia, a crônica, o artigo de opinião e a entrevista. Além disso, é desejável que o professor já tenha feito uma reflexão com os alunos a respeito da intertextualidade e de seus tipos,como paródia, pastiche e paráfrase.

Estratégias e recursos da aula

Professor, antes de começarmos a aula, vale uma observação: de maneira simples e direta, entendemos como retextualização a produção de um texto a partir outro. Algumas outras definições tratam da retextualização como a “transformação de um texto outro”, mas não gostamos muito dessa perspectiva. Muitos teóricos restringem-se a tratar desse fenômeno como a passagem do registro oral para o registro escrito Marcuschi (2002), por exemplo, mas nesta aula vislumbramos algo mais amplo.

A seguir, apresentamos alguns exemplos de textos retextualizados. Inicialmente, há um texto de Moacyr Scliar publicado na coluna semanal do Jornal Folha de São. Paulo. Trata-se de uma crônica que se inspira em uma notícia do próprio jornal. Nessa coluna, Scliar sempre escreve um texto fictício a partir de um fato real que virou notícia. O que apresentamos, então, é só um exemplo. 


Posteriormente, há o Hino Nacional do Brasil e uma paródia dele e, por fim, há um poema de Fernando Pessoa – Autopsicografia – e uma versão retextualizada desse mesmo poema por outro escritor. Propomos, em seguida, três atividades de retextualização para que os alunos realizem. Procure ler, discutir e debater os textos com os alunos antes das atividades.

EXEMPLOS DE RETEXTUALIZAÇÃO

EXEMPLO I

                                                                    (TEXTO ORIGINAL)   

                                                         Os problemas da abundância

                                                                                                                                        Moacyr Scliar

Um novo modelo de bordel, em que clientes podem fazer sexo à vontade por um único preço, surgiu na Alemanha. A rede de bordéis Pussy Club, inaugurada em junho passado, busca atrair clientes com o slogan "sexo com todas as mulheres, quanto e como você quiser". Os locais prometem "serviços ilimitados", incluindo sexo em grupo, pelo preço único de 70 euros ( cerca de R$ 187). A Alemanha é um dos poucos países no mundo onde a prostituição é legal. Há cerca de 400 mil prostitutas que, desde 2002, possuem permissão de trabalharem com contratos formais.

 Folha Online, 27 de julho de 2009

                      ;                                           (TEXTO RETEXTUALIZADO)

Depois que ele ouviu falar da nova rede de bordéis, não teve mais descanso. Decididamente, precisava conhecer aquele lugar; seria a verdadeira realização de um sonho. Aos 18 anos, só pensava em mulher; seu desejo sexual não tinha li mites e espantava at é os amigos. Quanto às garotas, n ão queriam saber dele: sua fama de insaciável assustava-as. Restava-lhe o recurso do bordel, mas aquilo custava caro, pois precisava pagar várias mulheres a cada noite, o que, com sua modesta mesada, ficava difícil. Com a modalidade "sexo com todas as mulheres, quanto e como você quiser" o problema estaria resolvido.

Na pequena cidade alemã em que morava não havia nenhum estabelecimento da rede Pussy Club, de modo que ele tomou um trem e viajou para uma das localidades mencionadas no anúncio. Seu plano era passar o fim de semana entregue aos prazeres do sexo, e para isso usaria todas suas economias.

Da estação ferroviária, correu diretamente para o bordel, que funcionava num antigo casarão, berrantemente decorado. Entrou, procurou a encarregada, pagou os 70 e perguntou para onde deveria ir ("rápido, porque não aguento mais"). Ela riu da afoiteza do rapaz.

"Você está com sorte", disse. "Nenhum cliente apareceu ainda, de modo que todas as moças estão à sua disposição." Eram oito, as moças. Desafio insuperável? Claro que não, garantiu ele. Muito bem, disse ela, dê-me dez minutos e depois vá àquele quarto ali em frente, onde as oito estarão por você.

Os dez minutos pareceram-lhe uma eternidade. Por fim, ele voou para o quarto e abriu a porta. Seu coração quase parou de bater. Ali estavam, sobre a cama imensa, oito jovens lindíssimas, todas nuas, todas a mirá-lo sorridentes. Pode vir, disse uma delas.

E aí aconteceu o inesperado. De repente, e como por um passe de mágica, o desejo sumiu. Ali estava ele, na entrada do paraíso sexual - e sem vontade nenhuma de fazer sexo. O que está acontecendo comigo?, perguntou-se, angustiado. As moças chamavam-no, agora impacientes, mas ele não tinha condições de atendê-las. Em desespero, correu para o saguão e pediu a encarregada que o ajudasse. Quem sabe um afrodisíaco qualquer...

Não, disse ela, a casa não dispunha de afrodisíaco, e mesmo que dispusesse, isso não estaria incluído nos 70. Ele perguntou se poderia voltar mais tarde, ou no dia seguinte. Não, não podia. O preço único dava direito a uma única sessão de sexo.
Desesperado, ele voltou para casa. E ali, claro, o desejo retornou, exuberante. Mas pelo menos ele podia contar com o sexo solitário. Que aliás não lhe custava nada.

                                                           (Fonte: Jornal Folha de S. Paulo, 03/08/2009, caderno Cotidiano - texto adaptado.)

  EXEMPLO II

(TEXTO ORIGINAL)   

Hino Nacional

Ouviram do Ipiranga as margens plácidas
De um povo heróico o brado retumbante,
E o sol da Liberdade, em raios fúlgidos,
Brilhou no céu da Pátria nesse instante.
Se o penhor dessa igualdade
Conseguimos conquistar com braço forte,
Em teu seio, ó Liberdade,
Desafia o nosso peito a própria morte!
Ó Pátria amada,
Idolatrada,
Salve! Salve!
Brasil, um sonho intenso, um raio vívido
De amor e de esperança à terra desce,
Se em teu formoso céu risonho e límpido
À imagem do Cruz eiro re splandece. Gigante pela própria natureza,
És belo, és forte, impávido colosso,
E o teu futuro espelha essa grandeza.
Terra adorada
Entre outras mil,
És tu, Brasil,
Ó Pátria amada!
Dos filhos deste solo és mãe gentil
Pátria amada,
Brasil !

(TEXTO RETEXTUALIZADO)

Fonte:  http://oblogdobrasilio.blogspot.com/2008/05/exemplo-de-pardia.html

Professor, acesse o site para visualizar melhor o texto.

EXEMPLO III

(TEXTO ORIGINAL)

Autopsicografia
                                                                                  

                                          Fernando Pessoa

                                                
O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.
E os que lêem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.
E assim nas calhas de roda
Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama coração.

27/11/1930

Fonte:  http://www.releituras.com/fpessoa_psicografia.asp , acesso em 02/11/2009 

(TEXTO RETEXTUALIZADO)

Por que escrevo?

O escritor é um observador.
Observa tão atentamente
Que na escrita tem que expor
Tudo o que percebe à frente.
E ainda sabe ele que ao escrev er
De fugir da timidez é capaz…
Se cara a cara não consegue de ixar ver
Tudo o que seu coração traz…
E, enfim, nos textos que cria
(Com gosto doce, salgado ou azedo)
Está a sua mais profunda fantasia,
Toda sua emoção, todo seu medo.
Brincar com as letras é, com magia,
Levar seu mundo à ponta do dedo.

- Livremente inspirado no poema “Autopsicografia“, de Fernando Pessoa.

Ana Helena Ribeiro Tavares

http://ahrt84.blog.terra.com.br/category/brinc ando-com-os-versos/parodias-poeticas/ , acesso em 02/11/2009.

ATIVIDADE I

Leia a seguinte nota:

“Especialista em inteligência artificial acredita que em 2050 será normal alguém apaixonar-se e casar-se com um robô.”

(Carta Capital, 10/11/200 - www.cartacapital.com.b r)

== >  Proposta: Baseando-se na ideia contida nessa nota, escreva uma crônica narrativa, de aproximadamente 30 linhas, para ser publicada em um jornal de grande circulação.

ATIVIDADE II

O texto a seguir é uma entrevista que trata da relação entre o mundo das drogas e o mundo da criminalidade. O entrevistado, autoridade no assunto em questão, emite seu ponto de vista à medida que o entrevistador faz as perguntas, como você poderá observar ao ler o texto.

                                                       Uma medida de pó

PARA VON LAMPE, OFERTA REGULADA DE DROGAS A VICIADOS TEM MENOS CUSTOS SOCIAIS; PARA ELE,     "CRIMINOSOS PRESTAM SERVIÇOS ÀS ELITES SOCIAIS"

EUCLIDES SANTOS MENDES
DA REDAÇÃO

O crime organizado é um "governo do submundo", defende o pesquisador alemão Klaus Von Lampe. Ele é autor do livro "Crime Organizado" (publicado na Alemanha em 1999). Professor de justiça criminal na Universidade da Cidade de Nova York (EUA) e um nomes mais respeitados em sua área, Von Lampe estuda a formação e a atuação do crime organizado, sobretudo na Europa. Em entrevista à Folha, ele diz que a violência desencadeada pelo crime é parte de um fenômeno que perpassa alianças, disputas e interesses entre grupos criminosos e também parcelas da elite social.
"Criminosos geralmente prestam serviços às elites sociais", afirma. Reduzir o poder do crime organizado - que chegou a derrubar um helicóptero da polícia, no Rio Janeiro (leia na outra página)- segundo Von Lampe, depende de ações que partam do Estado e da sociedade. Ele ainda defende, na entrevista abaixo, a descriminalização controlada das drogas, o que, diz, poderia reduzir o tráfico e seus custos sociais.

FOLHA - A legalização do uso de drogas é uma medida eficaz para combater o narcotráfico? KLAUS VON LAMPE - Em primeiro lugar, não acho, por várias razões, que uma legalização total de todas as drogas seja praticável. O que é mais viável é a descriminalização, juntamente com um alto nível de regulação. Em segundo lugar, o número de consumidores, o impacto negativo sobre eles, os custos sociais do uso de drogas e o volume do tráfico poderiam ser reduzidos significativamente fornecendo o acesso legal às drogas atualmente ilegais. Todas as pesquisas sobre os efeitos da oferta controlada de drogas aos consumidores -como a heroína dada aos viciados em heroína- indicam que isso apresenta mais vantagens que desvantagens.

FOLHA - Que drogas dão mais dinheiro ao crime organizado?
VON LAMPE - Depende do fornecimento, da demanda e dos traficantes de drogas. Quanto mais elevados são a intensidade da aplicação da lei e os custos de transporte, mais elevado será o valor por unidade. Por isso os traficantes colombianos trocaram a maconha por cocaína quando os EUA intensificaram os esforços contra o contrabando na região do Caribe. A maconha era, simplesmente, muito volumosa.

FOLHA - O que sustenta o fluxo do tráfico de drogas? VON LAMPE - Oferta e procura, e também um número justo de coincidências entre os meios de transporte, os contatos pessoais, as preferências e as habilidades dos traficantes.

FOLHA - No Brasil, organizações como o Primeiro Comando da Capital, em São Paulo, e o Comando Vermelho, no Rio, agem mesmo com vários de seus líderes presos. Como o sistema carcerário e a legislação penal contribuem para o fortalecimento do crime organizado? VON LAMPE - Há diversos exemplos, historicamente, de organizações criminosas (e, de forma geral, de redes criminosas) que estão sendo formadas dentro das prisões. Iss o não é uma surp resa, a prisão é um lugar de encont ro para pessoas que pensam de modo parecido. O fenômeno das gangues nas prisões parece ter relação, em parte, com superlotação e conflitos entre os detentos. A solução óbvia seria reduzir a superlotação nas prisões, procurando alternativas ao aprisionamento e/ou expandindo as capacidades do si stema carcerário.

FOLHA - Qual deve ser a responsabilidade do Estado no combate às organizações criminosas? VON LAMPE - É importante que a pressão na aplicação da lei em criminosos seja elevada. A polícia precisa de determinadas ferramentas de investigação para ser eficaz. Além dos meios repressivos, a polícia e a sociedade devem desenvolver medidas preventivas contra a logística de grupos criminosos, reduzindo as oportunidades para o crime organizado e para os criminosos se estabelecerem e manterem contatos com outros criminosos.

FOLHA - Sua tese de doutorado trata do conceito americano de "crime organizado". Como nasceu o crime organizado nas sociedades modernas? A vida urbana foi fundamental para isso? VON LAMPE - Eu examinei o conceito de crime organizado, que foi consistentemente usado no discurso político sobre o crime desde 1919, começando em Chicago [EUA]. Mas ele não é confinado necessariamente aos ambientes urbanos.

FOLHA - Em áreas dominadas pelo tráfico de drogas em cidades como o Rio de Janeiro, organizações criminosas têm influência na comunidade local. Pode haver mudanças na percepção social do crime dentro e fora da área controlada? VON LAMPE - Traficantes de drogas controlando um território são um problema que, acho, precisa ser visto sob diferentes ângulos. É preciso focar membros individuais, a gangue e seus símbolos, o contexto situacional de lugares de encontro, o transporte, o armazenamento e a venda das drogas. É preciso identificar os problemas sociais que conduzem à tolerância e à aceitação de traficantes de drogas em comunidades, a ponto de serem imitados pelos jovens. Não há nenhuma solução aplicável de maneira geral. É preciso sempre olhar a situação específica.

FOLHA - Como funciona a estrutura de poder do crime organizado? VON LAMPE - Há diferentes manifestações do crime organizado. Na maior parte da Europa Ocidental, o crime organizado está ligado ao fornecimento de mercadorias e serviços ilícitos, e atividades como fraude, roubo, saque e extorsão. Em algumas regiões da Europa e dos EUA, esses crimes ocorrem no contexto de um "governo do submundo", isto é, estruturas mais ou menos formalizadas que controlam e regulam atividades ilegais. Normalmente, nesses casos, os criminosos são forçados a compartilhar seus lucros ilegais com os grupos que se especializam no uso da violência e podem receber, em retorno, benefícios como proteção. Às vezes, há uma sobreposição entre empresas ilegais e o "gov erno do submundo" -por exemplo, quando membros de uma família da máfia na Sicília (Cosa Nostra) estão envolvidos no tráf ico de drogas. Às vezes, os grupos começam como empresas ilegais e procuram ganhar o controle sobre um território. Eles estabelecem então um monopólio ou licenciam as atividades de outros criminosos. Por exemplo, um grupo do tráfico permite a um número limitado de indivíduos vender drogas em um determinado território. Em algumas regiões da Europa -e, historicamente, também nos EUA- há uma aliança entre o mundo e o submundo. Os criminoso s colaboram com políticos e homens de negócios. Tais alianças emergem quando os governos e a sociedade civil são fracos. Os interesses particulares e políticos são perseguidos, mesmo violando a ordem legal e constitucional existente. Criminosos geralmente prestam serviços às elites sociais. Quando essas alianças se rompem, como no caso do cartel de Medellín [na Colômbia] e da máfia siciliana no começo dos anos 90, as elites políticas e dos negócios prevalecem no conflito militar subsequente, porque as elites sociais podem fa zer todo o uso de recursos estatais (incluindo a polí cia e as Forças Armadas).

FOLHA - Quais são as diferença s entre o crime organizado na Europa e nos Estados Unidos? VON LAMPE - As organizações criminosas na Europa e nos EUA se enquadram em três categorias amplas: empresas ilegais, associações criminosas e "governo do su bmundo". Empresas ilegais, como grupos que realizam tráfico de drogas, tendem a ser pequenas e encaixadas em redes criminosas maiores. Associações criminosas fornecem status e sustentação mútua e atendem, indiretamente, atividades econômicas ilícitas dos seus membros. Elas regulam o comportamento entre os membros, como uma associação profissional, e podem desenvolver uma estrutura hierárquica.
"Governos do submundo" precisam ter uma estrutura hierárquica para evitar o conflito interno e trabalhar efetivamente. Eles também precisam ser reconhecíveis. Em muitos casos, isso é conseguido por meio de alguns símbolos. Associações criminosas podem funcionar como "governos do submundo". Em contraste, as demandas na estrutura da organização são bastante diferentes para empresas ilegais e outras formas de organização criminosa, de modo que elas raramente aparecem como uma organização.

(Fonte: Jornal Folha de S. Paulo, 1º /11/2009, Caderno Mais)

==> Proposta de redação: Após fazer leitura atenta desse texto, observe seus principais trechos, bem como identifique as opiniões do entrevistado e os argumentos que ele utiliza para defendê-las. Em seguida – depois de você ter selecionado as ideias que chamaram mais sua atenção – você deverá escrever um artigo de opinião, de aproximadamente 25 linhas, contendo reflexões e esclarecimentos sobre a relação entre as drogas e a criminalidade, a partir das considerações do pesquisador Von Lampe. Procure parafrasear as ideias dele, mas não as copie. Você pode corroborá-las ou refutá-las. Mas lembre-se de usar bons argumentos

Professor, procure estimular os alunos no intuito de fazer circular os textos. Que tal divulgá-los na escola e na comunidade em que os alunos estão inseridos?

ATIVIDADE III

Leia o texto a seguir:

                                                          Um Apólogo

                                                                                                                                     Machado de Assis

Era uma vez uma agulha, que disse a um novelo de linha:
— Por que está você com esse ar, toda cheia de si, toda enrolada, para fingir que vale alguma cousa neste mundo?
— Deixe-me, senhora.
— Que a deixe? Que a deixe, por quê? Porque lhe digo que está com um ar insuportável? Repito que sim, e falarei sempre que me der na cabeça.
— Que cabeça, senhora? A senhora não é alfinete, é agulha. Agulha não tem cabeça. Que lhe importa o meu ar? Cada qual tem o ar que Deus lhe deu. Importe-se com a sua vida e deixe a dos outros.
— Mas você é orgulhosa.
— Decerto que sou.
— Mas por quê?
— É b oa! Porque coso. Então os vestidos e enfeites de nossa a ma, quem é que os cose, senão eu?
— Você? Esta agora é melhor. Você é que os cose? Você ignora que quem os cose sou eu e muito eu?
— Você fura o pano, nada mais; eu é que coso, prendo um pedaço ao outro, dou feição aos babados...
— Sim, mas que vale isso? Eu é que furo o pano, v ou adiante, puxando por você, que vem atrás obedecendo ao que eu faço e mando...
— Também os batedores vão adiante do imperador.
— Você é imperador?
— Não digo isso. Mas a verdade é que você faz um papel subalterno, indo adiante; vai só mostrando o caminho, vai fazendo o trabalho obscuro e ínfimo. Eu é que prendo, ligo, ajunto...
Estavam nisto, quando a costureira chegou à casa da baronesa. Não sei se disse que isto se passava em casa de uma baronesa, que tinha a modista ao pé de si, para não andar atrás dela. Chegou a costureira, pegou do pano, pegou da agulha, pegou da linha, enfiou a linha na agulha, e entrou a coser. Uma e outra iam andando orgulhosas, pelo pano adiante, que era a melhor das sedas, entre os dedos da costureira, ágeis como os galgos de Diana — para dar a isto uma cor poética. E dizia a agulha:
— Então, senhora linha, ainda teima no que dizia há pouco? Não repara que esta distinta costureira só se importa comigo; eu é que vou aqui entre os dedos dela, unidinha a eles, furando abaixo e acima...
A linha não respondia; ia andando. Buraco aberto pela agulha era logo enchido por ela, silenciosa e ativa, como quem sabe o que faz, e não está para ouvir palavras loucas. A agulha, vendo que ela não lhe dava resposta, calou-se também, e foi andando. E era tudo silêncio na saleta de costura; não se ouvia mais que o plic-plic-plic-plic da agulha no pano. Caindo o sol, a costureira dobrou a costura, para o dia seguinte. Continuou ainda nessa e no outro, até que no quarto acabou a obra, e ficou esperando o baile.

Veio a noite do baile, e a baronesa vestiu-se. A costureira, que a ajudou a vestir-se, levava a agulha espetada no corpinho, para dar algum ponto necessário. E enquanto compunha o vestido da bela dama, e puxava de um lado ou outro, arregaçava daqui ou dali, alisando, abotoando, acolchetando, a linha para mofar da agulha, perguntou-lhe:
— Ora, agora, diga-me, quem é que vai ao baile, no corpo da baronesa, fazendo parte do vestido e da elegância? Quem é que vai dançar com ministros e diplomatas, enquanto você volta para a caixinha da costureira, antes de ir para o balaio das mucamas? Vamos, diga lá.
Parece que a agulha não disse nada; mas um alfinete, de cabeça grande e não menor experiência, murmurou à pobre agulha:
— Anda, aprende, tola. Cansas-te em abrir caminho para ela e ela é que vai gozar da vida, enquanto aí ficas na caixinha de costura. Faze como eu , que não abro caminho para ninguém. Onde me espetam, fico.
Contei esta história a um professor de melancolia, que me disse, abanando a cabeça:
— Também eu t enho servido de agulha a muita linha ordinária!

==>Proposta: O texto que você acabou de ler pertence ao tipo narrativo e explicita um diálogo entre duas personagens. Você deverá, agora, formar um grupo com seus colegas de sala e montar um roteiro para dramatizar o enredo desse texto. Façam todas as adaptações necessárias: vocês podem alterar a linguagem do texto, podem também modificar a s personagens, em uma versão mais atual, e acrescentar dados à história. Ponham a criatividade para funcionar!

Professor,dê sugestões aos seus alunos, se necessário. Por exemplo, como seria um diálogo, semelhante ao do apólogo, só que entre um engenheiro e um pedreiro, ou entre um patrão e sua secretária?

Recursos Complementares

Professor, para que o aluno veja a possibilidade de retextualização em outras linguagens, sugerimos que você apresente os vídeos a seguir. Trata-se da música “Meu Erro, primeiramente sua versão original, e em seguida uma versão de Zizi Possi.

http://www.youtube.com/watch?v=M2ijt9sg-pQ

http://www.youtube.com/watch?v=kZTBV-tYe-U

Avaliação

Professor, para avaliar o desempenho dos alunos, propomos, a seguir, alguns critérios:


a) O texto do aluno, retextualizado, dialogou com o texto motivador?
b) O aluno parafraseou trechos do texto motivador ou simplesmente copiou-os?
c) As ideias do aluno foram originais?
d) O texto foi coerente e coeso?
e) O texto atendeu à norma-padrão da língua escrita? (se o texto pertence ao registro escrito). Ou: o texto atendeu às características da língua oral? (se o texto pertence ao registro oral).

Se você for avaliar a atividade em 10 pontos, supostamente, distribua dois pontos para cada item. Mas lembre-se de que o item “a” é decisivo na nota final, uma vez que, se o aluno produziu um texto que não dialogou com o texto motivador, a nota de cada um dos outros itens consequentemente deverá ser alterada. Não faz sentido, por exemplo, o aluno ganhar 100% em coerência e coesão se ganhou 50% no item “a”.

Opinião de quem acessou

Quatro estrelas 2 classificações

  • Cinco estrelas 1/2 - 50%
  • Quatro estrelas 1/2 - 50%
  • Três estrelas 0/2 - 0%
  • Duas estrelas 0/2 - 0%
  • Uma estrela 0/2 - 0%

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Opiniões

  • regina ferreira, ee manuel ciridião buarque , São Paulo - disse:
    reginapinheiro02@yahoo.com.br

    31/03/2013

    Quatro estrelas

    Muito interessante. Enriquece nossas atividades. Estimula a criatividade, permite a atividade em grupo. Possibilita a reflexão sobre aspectos gramaticais, isto é, sobre seu sentido. Lida com o uso e não só com a teoria.


  • rosangela, colegio estadual perilo r. de moura , Goiás - disse:
    rosangelafelixsantos@hotmail.com

    24/03/2010

    Cinco estrelas

    É UMA ÓTIMA AULA , NOSSOS ALUNOS PRECISAM MUITO ESCREVER MELHOR SEUS TEXTOS E COM ESSAS DICAS PODEMOS AJUDÁ-LOS ...


Sem classificação.
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