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Identificando o Eu-lírico

 

19/12/2010

Autor e Coautor(es)

Maria Cristina Weitzel Tavela

Estrutura Curricular
Modalidade / Nível de Ensino Componente Curricular Tema
Ensino Médio Língua Portuguesa Produção, leitura, análise e reflexão sobre linguagens
Ensino Médio Língua Portuguesa Aspectos cognitivo-conceituais: mundo, objetos, seres, fatos, fenômenos e suas inter-relações
Ensino Fundamental Final Língua Portuguesa Análise linguística: modos de organização dos discursos
Ensino Médio Língua Portuguesa Relações sociopragmáticas e discursivas
Educação de Jovens e Adultos - 2º ciclo Língua Portuguesa Linguagem escrita: leitura e produção de textos
Ensino Fundamental Final Língua Portuguesa Análise linguística: léxico e redes semânticas
Ensino Fundamental Final Língua Portuguesa Análise linguística: processos de construção de significação
Educação de Jovens e Adultos - 2º ciclo Língua Portuguesa Análise linguística
Ensino Médio Língua Portuguesa Recursos linguísticos em uso: fonológicos, morfológicos, sintáticos e lexicais
Dados da Aula
O que o aluno poderá aprender com esta aula

Interpretar efeitos de sentido decorrentes da representação ou da não representação, nos textos, de suas vozes;

reconhecer e usar focos enunciativos (pontos de vista) adequados aos efeitos de sentido pretendidos;

reconhecer posicionamentos enunciativos presentes nos textos e suas vozes representativas;

posicionar-se criticamente frente a posicionamentos enunciativos presentes nos textos;

distinguir “eu-lírico” (voz textual) de “eu-biográfico” (autor).

Duração das atividades
2 aulas de 50 minutos
Conhecimentos prévios trabalhados pelo professor com o aluno

Habilidades básicas de leitura e escrita.

Estratégias e recursos da aula

Professor, esta aula tem por objetivo maior expor as diferenças entre "eu-lírico" (sujeito poético, sujeito lírico, eu-poético - voz enunciadora no texto) e "eu-biográfico" (o próprio autor).

Para iniciar, introduza o conceito de poesia lírica, vista a partir de uma visão ainda romântica:

O “eu” romântico valoriza o sentimento e a emoção individual, como inspiração da alma.

Acredita ser este um meio de expressar a si próprio e à natureza.

Este "eu" do lirismo romântico, é um ser egocêntrico que pretende, muitas vezes de maneira confessional, expressar-se partindo de suas experiências diante do mundo.

Esta concepção de expressão ainda é muito utilizada e confundida, principalmente por aqueles que acreditam que a literatura deva expressar uma "realidade".

Basicamente, quando as crianças ou adolescentes desejam produzir "poemas" na escola, o que surgem são textos que são marcados pelo sentimentalismo e até por relatos do que viveram. Isso deve-se, na maioria das vezes, pela incapacidade de dissociar o "autor" (quem produz o texto) do "enunciador" (quem se expressa no texto).

Portanto, para a aula é importante que os alunos já pensem numa relação básica de distinção dessas vozes:

"EU-LÍRICO"   "EU-BIOGRÁFICO"

Na poesia moderna, a partir do Simbolismo (final do séc. XIX), poetas como Rimbaud e Mallarmé demonstraram ser relativa a subjetividade num poema.

O sujeito explicitado como “eu” não se refere a uma pessoa particular. Rimbaud explicita isso na "Carta dita do Vidente", escrita a Georges Izambard, em 1871, quando afirma que "Eu é um outro".

O poeta moderno entende que sua visão do mundo é, antes de tudo, linguagem, e para ele basta. A linguagem funciona como mediação entre o poeta e a realidade, deixando a ilusão da poesia clássica que acreditava na expressão de uma verdade.

Atividade 1

Para a primeira atividade:

(1) indique para os alunos a busca do poema "Autopsicografia", de Fernando Pessoa.

http://www.releituras.com/fpessoa_psicografia.asp 

Após a pesquisa:

(2) peça para debaterem sobre os versos que afirmam ser o poeta "um fingidor" que finge que "é dor a dor que deveras sente".

Se ainda não estiver claro o que pretende esse poeta moderno ao "fingir", peça para pesquisarem sobre a vida de Pessoa.

(3) indique o link sobre a biografia do poeta.

http://www.pessoa.art.br/?page_id=11 

(4) indique o link sobre os heterônimos (outros nomes) do poeta.

http://www.pessoa.art.br/?p=563 

(5) indique os links com textos dos três principais heterônimos de Pessoa: Alberto Caeiro, Álvaro de Campos, Ricardo Reis.

http://www.pessoa.art.br/pessoa/?p=16   

http://www.pessoa.art.br/pessoa/?cat=4 

http://www.pessoa.art.br/pessoa/?cat=3 

Após a pesquisa e a leitura, questione, para que respondam oralmente:

a) o que é um heterônimo?

b) com que objetivo o poeta os criou?

c) podemos, então, crer que quem se expressa nos textos é o indivíduo Fernando Pessoa?

Professor, a partir desta atividade, mesmo parecendo estranho para alguns, a distinção entre "eu-lírico" e "eu-biográfico" começará a tomar forma.

Atividade 2

Para a segunda atividade:

(1) indique para os alunos o estudo de poemas de Manoel de Barros.

Por ser um poeta "estranho", "fora da lógica" realista, Manoel de Barros é citado aqui, com dois deles.

(2) distribua para os alunos a cópia dos poemas: Os dois, do livro Poemas Rupestres Andarilho, de Livro sobre nada.

OS DOIS  

Eu sou dois seres.

O primeiro é fruto do amor de João e Alice.

O segundo é letral: 

 É fruto de uma natureza que pensa por imagens,  

Como diria Paul Valéry.  

O primeiro está aqui de unha, roupa, chapéu  

e vaidades.  

O segundo está aqui em letras, sílabas, vaidades  

Frases.  

E aceitamos que você empregue o seu amor em nós.

BARROS, Manoel de. Poemas Rupestres. 2ª ed. Rio de Janeiro: Best Seller, 2006, p. 45.

O ANDARILHO

Eu já disse quem sou ele.

Meu desnome é Andaleço.

Andando devagar eu atraso o final do dia.

Caminho por beiras de rios conchosos.

Para as crianças da estrada eu sou o Homem do Saco.

Carrego latas furadas, pregos, papéis usados.

(Ouço harpejos de mim nas latas tortas.)

Não tenho pretensões de conquistar a inglória perfeita.

Os loucos me interpretam.

A minha direção é a pessoa do vento.

Meus rumos não têm termômetro.

De tarde arborizo pássaros.

De noite os sapos me pulam.

Não tenho carne de água.

Eu pertenço de andar atoamente.

Não tive estudamento de tomos.

Só conheço as ciências que analfabetam.

Todas as coisas têm ser?

Sou um sujeito remoto.

Aromas de jacintos me infinitam.

E estes ermos me somam.

BARROS, Manoel de. Livro sobre nada. 4ª ed. Rio de Janeiro: Record, 1997, p. 85.

Após a leitura e a análise feita pelos alunos, peça que respondam às seguintes perguntas, no caderno:

a) como o eu-lírico se define?

b) que semelhanças ele tem com o eu-biográfico?

c) que elementos textuais deixam claras as marcas da dissociação entre eu-lírico e eu-biográfico?

d) as imagens poéticas parecem "absurdas" ou comuns? Justifique.

Abaixo, dicas de biografias simplificadas de Manoel de Barros e de Paul Valéry, citado no primeiro poema:

http://www.releituras.com/manoeldebarros_bio.asp 

http://www.revista.agulha.nom.br/manu.html#bio 

http://www.culturapara.art.br/opoema/paulvalery/paulvalery_db.html  

Para esclarecer, sugira que seus alunos apontem o que marca essa separação entre sujeitos:

(3) divida-os em grupos de quatro ou cinco alunos.

(4) peça para cada grupo ir até o quadro e preencher com dados retirados dos textos (poemas e biografia) uma tabela com o seguinte formato.

"EU-LÍRICO" 

"EU-BIOGRÁFICO"

Depois sugira que todos copiem no caderno as informações reunidas. 

Provavelmente, eles chegarão à conclusão de que esta separação se faz pela linguagem, pelo modo de expressão, como afirma Salete de Almeida Cara.

"O sujeito lírico sempre existe através das escolhas de linguagem que o poema apresenta, mas na poesia moderna fica mais evidente que o sujeito lírico é o responsável por esses 'atos de denominação': não pode ser confundido com o poeta em carne e osso porque sua existência brota da melodia, do canto, da sintaxe, do ritmo: o sujeito lírico é o próprio texto, e é no texto que o poeta real transforma-se em sujeito lírico".

Atividade 3

Para a terceira atividade:

(1) indique letras de músicas da MPB.

Aqui serão utilizadas Outras capitais, de Itamar Assumpção, Tubi Tupy, de Lenine, e Dom de iludir, de Caetano Veloso. Caso seja possível, ouça com os alunos as músicas.

http://letras.terra.com.br/itamar-assumpcao/272474/ 

http://letras.terra.com.br/lenine/88969/ 

http://letras.terra.com.br/caetano-veloso/44719/ 

Para os alunos deverá ficar claro que, na primeira letra, o eu-lírico, personificado, é a Cidade de São Paulo - a capital que está cheia demais e que questiona as pessoas sobre o que desejam e onde poderiam viver de acordo com sua vontade.

Na segunda letra, Lenine constrói um texto onde o eu-lírico afirma-se como indígena ou descendente destes. Menciona tribos e índios que ficaram famosos historicamente, literariamente ou politicamente, como o "eu" do poema.

"Dom de iludir" é uma resposta feminina à letra de "Pra que mentir?", de Noel Rosa, onde o enunciador acusa uma mulher de não saber mentir, afirmando que tem conhecimento do desejo dela por outro homem.

Abaixo uma biografia de Itamar Assumpção, outra de Lenine e de Caetano Veloso:

http://www.mpbnet.com.br/canto.brasileiro/itamar.assumpcao/ 

http://www.lenine.com.br/bio 

http://revistaepoca.globo.com/Epoca/0,6993,EPT731625-1655,00.html 

(2) peça para os alunos apresentarem suas conclusões após a leitura e a audição das músicas, sobre a existência ou não do autor no texto.

(3) divida a turma em três grupos que deverão apresentar oralmente, para os outros, suas conclusões.

Recursos Complementares

http://oficioliterario.com.br/2010/05/18/eu-lirico/ 

http://www.revista.agulha.nom.br/ag39willer.htm 

http://www.caiomeira.kit.net/rimbaud.htm

http://www.estadao.com.br/noticias/arteelazer,manoel-de-barros-o-poeta-que-veio-do-chao,523717,0.htm 

http://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=24206 

http://fredb.sites.uol.com.br/pessoa.html 

CARA, Salete de Almeida. A poesia Lírica. São Paulo: Bom livro, 1989. 

PESSOA, Fernando. Obra Poética. Rio de Janeiro: Nova Fronteira.

RIMBAUD, Arthur. Uma estadia no inferno, poemas escolhidos, a carta do vidente. São Paulo: Martin Claret, 2002.

Avaliação

Professor, para a avaliação:

(1) divida a turma em grupos de três alunos.

(2) sugira que cada grupo "crie" um eu-lírico.

(3) peça para se expressarem com um texto simples, que caracterize este eu-lírico, para que a turma analise as relações de suas afirmações com a realidade vivida pelos colegas do grupo.

(4) abra espaço para a apresentação oral ou cênica, caso queiram.

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