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Variação linguística, que preconceito é esse?

 

03/06/2013

Autor e Coautor(es)
KEILA VIEIRA DE LIMA
imagem do usuário

CURITIBA - PR SECRETARIA ESTADUAL DE EDUCAÇÃO

Suelen Fernanda Machado

Estrutura Curricular
Modalidade / Nível de Ensino Componente Curricular Tema
Ensino Médio Língua Portuguesa Produção, leitura, análise e reflexão sobre linguagens
Ensino Médio Língua Portuguesa Recursos linguísticos em uso: fonológicos, morfológicos, sintáticos e lexicais
Dados da Aula
O que o aluno poderá aprender com esta aula

- Conhecer as diferenças culturais na forma da expressão da linguagem;

- Analisar as variações da língua em seu uso;

- Compreender as diferenças decorridas do uso da linguagem.

Duração das atividades
4 aulas de 50 minutos
Conhecimentos prévios trabalhados pelo professor com o aluno

Os conhecimentos prévios exigidos do aluno para esta aula são:

Noção dos países que falam a língua portuguesa;

Ter uma noção do que são variações linguísticas.

Estratégias e recursos da aula

palavras

Fonte: http://zellacoracao.wordpress.com/2009/08/31/variacao-linguistica-x-ensino-de-lingua/

 

Professor, inicie a aula explicando o que é variação linguística e como ela acontece. Comente que calcula-se que existem mais de 200 milhões as pessoas falam português em todo o mundo.

Explique que dentro dessa diversidade toda não existe uma unidade linguística, pois só no Brasil temos mais de duzentas línguas faladas em diversas partes do país, temos sobreviventes das antigas nações indígenas e comunidades de imigrantes estrangeiros que até hoje mantém viva a língua de seus ancestrais.

Em seguida, pergunte aos alunos:

Você conhece alguma pessoa brasileira que tem um sotaque diferente? Como é o sotaque?

Já se perguntou de onde ele herdou essa maneira de falar?

Você sabe por que as pessoas falam de diferentes maneiras?

Após a discussão das questões acima, complemente explicando que nossa língua embora altamente organizada, é variável, isto é, um sistema flexível. E sendo dessa forma, nenhuma língua viva é fixa, fechada ou sólida.
Pode comentar também que na concepção da sociolinguística (que é uma das ciências da linguagem que explica as variações linguísticas), a língua é intrinsecamente heterogênea, ou seja, múltipla, variável, instável, estando assim, sempre em construção e desconstrução. Esse é o momento de tratar das questões do preconceito linguístico.

Comentar que essas variações linguísticas existem devido à diversidade de povos e culturas.

Em seguida, comente com os alunos que iremos trabalhar com três tipos de variação linguística: geográfica, histórica e social.
 

atividade1

Variação geográfica
Explique aos alunos que a variação geográfica é a mais conhecida e fácil de identificar, é a variante de cada região, chamada também de variação diatópica. Aparecem nas diferenças nas formas de pronúncias das palavras, no uso de diferentes vocabulários e nas estruturas sintáticas entre as regiões.

Comente que temos expressões que chamamos de dialetos, que é quando numa mesma língua encontramos variedades entre regiões do mesmo país, que é caso da nossa variação linguística. Algumas vezes essa variante é tão distinta, a ponto de dificultar a intercomunicação entre elas, mas na grande maioria dos casos a variante não impede o entendimento. No Brasil não há casos de dialetos que impedem o entendimento entre os falantes, porém isso acontece com a língua italiana que é um mosaico de variedade dialetal.

Apresente a definição de dialeto do Dicionário Houaiss: “Um dialeto é qualquer variação regional de um idioma que não chegue a comprometer a inteligibilidade mútua entre o falante da língua principal com o falante do dialeto".

Em seguida, apresente aos alunos a animação a seguir para que realizem a atividade:

 

Após realizar a atividade, responda:

O que pode perceber sobre a cultura brasileira? A cultura influencia em nossa língua? De que maneira?

 

Em seguida, apresente aos alunos o vídeo sobre as peculiaridades de dialetos e culturas de vários países que falam a língua portuguesa:

 

 

Com base no vídeo Língua, quais especificidades podemos perceber sobre a língua portuguesa? Quais são os paises que falam a língua portuguesa?

A Língua Portuguesa é inflexível? Justifique com base nas informações do vídeo.

A Língua Portuguesa é identicada em todos os países falantes?

 

Professor, comente com os alunos que temos uma grande divisão de variantes no Brasil, o caipira, utilizado principalmente nas cidades do interior de São Paulo, no norte do Paraná, no sul de Minas Gerais, sul de Goiás e leste do Mato Grosso do Sul -, o mineiro, paulista, baiano, gaúcho, catarinense, carioca ou fluminense, sulista, entre outros.


Em seguida, mostre o texto de um famoso escritor, Millôr Fernandes, para que os alunos percebem a variação linguística presente e a crítica sobre a tentativa de reforma ortográfica realizada entre os países que falam a Língua Portuguesa com o objetivo de unificar as línguas:
 

Tem aí meia dúzia de urnigos (1), na calada da noite, arquitetando um plano pra “unificação” da língua portuguesa. Escrevi o trecho abaixo em português de Portugal pra vocês verem como será fácil essa unificação.

(1. Palavra portuguesa que significa o que significa.) [...]

 

UNIFICAÇÃO LINGUÍSTICA, QUE CLAREZA!

            Estava a conduzir meu automóvel numa azinhaga com um borracho muito gira ao lado, quando dei com uma bossa na estrada de circunvalação que um bera teve a lata de deixar. Escapei de me espalhar à justa. Em havendo um bufete à frente, convidei a chavala a um copo. Botei o chiante na berma e ordenamos ao criado de mesa, uma sande de fiambre em carcaça eu, e ela um miau. O panasqueiro, com jeito de marialva paneleiro, um chalado da pinha, embora nos tratando nas palminhas, trouxe-nos a sande com a carcaça esturrada (e sem caganitas!), e, faltando-lhe o miau, deu-nos um prego duro.”

Fonte: Millôr Fernandes. Revista: Isto é Senhor, 19/06/1991, p.8. Adaptado.

Após a leitura do texto, comente com os alunos:

Você deve ter percebido que existem diferenças entre o modo de falar do português brasileiro e do português de Portugal. As diferenças fonéticas (trata-se da pronúncia dos sons), o brasileiro diz eu sei, o português dizeu sâi. As diferenças lexicais ou de vocabulários (trata-se das palavras que existem lá e não existem aqui, e vice-versa). Os habitantes da zona rural são chamados de saloio em Portugal e no Brasil chamamos de caipira, capiau, matutu. No modo de organizar as frases, orações e partes que nas compõem também há diferenças, são as diferenças sintáticas, no Brasil usamos estou falando com você, em Portugal, estou a falar consigo. Quanto ao significado das palavras, chamados de diferenças semânticas, cueca por exemplo, são as calcinhas das brasileiras, bichas significa filas. Lembre-se, ainda existem outras diferenças que podem ser pesquisadas por você.

Em seguida, organize os alunos em grupos de 3 ou 4 alunos e trabalhe com as questões a seguir solicitando que registrem as respostas nos cadernos para que possam compartilhar com o restante da turma:

O texto apresenta uma variedade linguística, a variante do português de Portugal. O que você percebeu de diferente nessa língua?

O título já sugere o tema principal do texto?

Qual é a crítica que Millôr Fernandes realiza no texto acima?

De que maneira ele realiza essa crítica?

 

Professor, organize os grupos para que transcrevam o texto e apresentem uma versão “traduzida” para o texto, utilizando o caderno para o registro. Após a discussão e anotações nos grupos apresentem para a turma e veja qual ficou mais coerente.

 

laboratorio

No laboratório de informática, ou em casa, pesquise outras palavras do português de Portugal que existam na nossa língua, mas com outro significado. Registre em seu caderno para apresentar ao restante da turma.

Professor, esta é uma sugestão de tradução: Eu dirigia meu carro por um caminho de pedras tendo ao lado uma gata espetacular, quando vi um lombo na estrada de contorno  que um escroto teve o descaramento de fazer. Por pouco não bati nele. Como havia em frente uma lanchonete, convidei a mina a tomar um drinque.  Coloquei o carro no acostamento e pedimos ao garçom sanduíche de presunto com pão de forma eu, e ela sanduíche de lombinho. O gozador, com jeito  de  don Juan bicha,  muito louco,  embora nos tratando muito bem,  trouxe  o  sanduíche com o pão queimado  (e sem azeitonas!) e, não tendo sanduíche de lombinho, trouxe um de churrasquinho duro.

 

curiosidade

Acordos Ortográficos

A língua portuguesa já passou por várias mudanças na escrita devido ao objetivo de unificação da grafia, e o critério para isso é o fonético, uma delas é o de abolir as consoantes mudas, deixar a escrita das palavras mais próximas à forma falada.

Já devem ter visto palavras escritas de maneira não habitual a nossa, se pegarmos um jornal do século XIX, por exemplo, encontraram uma variante histórica, palavras como... uma escrita diferente da utilizada hoje em dia.

Em 1931 houve o primeiro Acordo Ortográfico assinado por Brasil e Portugal, as alterações do acordo só entraram em vigência em 1971, quando realmente as mudanças aconteceram no Brasil. No ano de 1990 concordaram novamente em assinar novo acordo de unificação, onde o acordo vigorou apenas em 1º janeiro de 2009, tendo o prazo até 31 dezembro de 2012 para adaptação.

Os países pertencentes à Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), são eles as cinco nações africanas: Angola, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique e São Tomé e Príncipe, e os países Portugal, Brasil e Timor Leste. CPLP é uma organização internacional pelos oitos países independentes que têm a língua portuguesa como idioma oficial.

A Academia Brasileira de Letras estabelece a ortografia oficial por meio do Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa, conhecido por “VOLP”. A ABL também cuida para que as palavras estrangeiras não interfiram tanto em nosso idioma, propondo novos termos para substituí-los.

sugestoes

Professor, sugiro que aproveite este momento da aula para falar um pouco sobre a Reforma Ortográfica e seus objetivos. Uma sugestão é direcionar uma pesquisa com base nas perguntas abaixo com o intuito que os alunos entendam o sentido dessa reforma.

A partir dos teus conhecimentos sobre a reforma ortográfica, tal unificação pretendida será possível na modalidade escrita da língua? E na oralidade?

Você conhece a Nova Ortografia proposta a partir da Reforma Ortográfica proposta em 2009?

Você já realizou uma pesquisa sobre o que modificou?

Qual é o objetivo desta nova reforma?

Professor, retornando as variações geográficas apresente a seguinte frase aos alunos:

Você sabe o que é uma passadeira?

Comente: Se respondeu que é lugar onde se passa roupa, errou! Passadeira é a famosa “tiara” ou “arquinho” como chamamos no Paraná, devido a variação geográfica em outras regiões ela recebe outros nomes.

Em seguida, mostre exemplos de variações geográficas:

 

Os sinônimos da tiara

O tradicional ornato para cabelos, a tiara ou diadema, já foi uma exclusividade feminina. Na origem, tanto “tiara” quanto “diadema” são palavras de bom berço. “Tiara” nomeava o adorno que era o signo de poder entre os poderosos da Pérsia antiga e povos como os frísios, os bizantinos e os etíopes. A palavra foi incorporada do Oriente pela Grécia e chegou até nós por via latina, para quem queria referir-se à mitra usada pelos persas. Diadema era a faixa ou tira de linho fino colocado na cabeça pelos antigos latinos, herança do derivado grego para diádo (atar em volta, segundo o Houaiss). No Brasil, a forma de arco ou de laço das tiaras e alguns usos específicos (o nordestino “gigolete” faz alusão ao ornato usado por cafetinas, versões femininas do “gigolô” produziram novos sinônimos regionais do objeto.


Travessa – Pará – Amazonas
Passadeira – Bahia
Gigolete – Ceará – Pernambuco
Atraca – Piauí
Arquinho – São Paulo, oeste do Paraná


Fonte: Revista Língua Portuguesa  - Ano II , número 23 - 2007

No Brasil temos inúmeras variações de vocabulário:

Os 10% da conta

Um agradinho em dinheiro é praxe quando alguém faz um serviço bem feito. Seja no bar, para o manobrista ou entrega de qualquer natureza é de bom tom deixar algo a mais, como institucionalizou o ramo dos restaurantes. A etimologia da palavra “gorjeta” remete ao século XVIII, e significa “dinheiro para comprar bebida”, segundo o dicionário Houaiss.

Caixinha – São Paulo

Inhapa – Sul

Potaba – Nordeste

Blefaia – Bahia, Minas Gerais

Changa – Sul

Badico – Rio de Janeiro

Xixica – Paraíba

Adiafa, queijada, maquia – Portugal

Fonte: Revista Língua Portuguesa - ano III. N 27 – 2007

 

A dose do santo


Servida no copinho americano, a cachaça é a bebida mais consumida nos botecos do país. A origem do nome é incerta. O Houaiss diz que a aguardente, feita de borras de melaço no século XV, recebeu o nome de “cachaça” devido à comparação com o “vinho de borras”, de Portugal.
Alguns atribuem etimologia africana ao termo, como feminino de cachaço “parte gorda e grossa do pescoço do porco”. Outros apostam no latim coquère “cozer, cozinhar, amadurecer, digerir”. Em dois séculos, esse índice de nossa cultura teve mais de 250 variações de nome. Os dicionários incorporaram até marcas como sendo seus sinônimos, como Sapupara (CE), Boazinha (MG), Amansa-Corno (CE/RJ) e Monjopina (PE), esta, aliás, a primeira aguardente industrializada no Brasil, em 1756.

Cotréia – amazonas Sergipe
Canjebrina – Nordeste
Caiana – Norte
Abrideira – Interior da Bahia
Caeba – Rio Grande do Norte, Ceará
Moça Branca – Rio Grande do Norte
Guampa – Sul
Porongo – Sergipe
Meropéia – Ceará
Pelocopá – Pernambuco

Fonte: Revista Língua Portuguesa ano II – n 24 – 2007

Comente que o tratamento pessoal utilizando os pronomes também é diferente em determinados estados.  Pergunte se já viram uma frase parecida com a abaixo:

“Mas che, é uma maravilha escutar essas lindas canções dos pagos do Rio Grande, sou de Palmas-Paraná e admiro a cultura gaúcha, gosto de ouvir quando estou fazendo meus trabalhos da faculdade, sabes que rende uma barbaridade.”    

Fonte: Carta do Leitor: F. M. L. Outubro/2008.

Explique aos alunos que o uso dos pronomes de tratamento pessoal tu e vós ainda é mantido em lugares como o Rio Grande do Sul e Santa Catarina. Observe que na carta de um leitor para uma rádio gaúcha, ele utiliza o verbo saber “sabes” na segunda pessoa do singular. E comente que dentro de cada estado também encontramos muitas variações, como por exemplo, o estado do Paraná que recebe influências de São Paulo, Rio Grande do Sul, de algumas regiões de Santa Catarina e de sotaques de colonizações alemães.

Pergunte aos alunos o que eles acham dessas variações linguísticas?
Conseguem perceber que tem de onde vem tal influência?
Você conhece alguém que traz um sotaque diferente do teu? De onde ele é?

Uma pesquisa realizada recentemente pelo jornal Gazeta do Povo mostrou alguns exemplos de sotaques dentro do Paraná. Em seguida, mostre uma notícia sobre a atriz Graziela Massafera.

grazi

Acesse o link: http://sitedaescola.com/aulas_inovadoras/keila/noticia_grazi.pdf

Peça que os grupos respondam as questões abaixo, registrando no caderno para em seguida, apresentarem ao restante da turma:

Com base na reportagem acima, vocês concordam com a opinião da professora Vanderci Aguilera? Por quê?
Qual sua opinião sobre Graziela ser obrigada a estudar para aprender o sotaque “global” para não ficar “restrita a papeis como o de Telminha”? Conhecem alguém que passou pela mesma situação?
Você considera tal atitude preconceituosa? Por quê? Caso considere, responda que tipo de preconceito é esse?
Já percebeu que na maior rede de televisão brasileira existe um padrão de fala? Qual é esse padrão?

Reforce com os alunos que hoje em dia ainda há um grande equívoco que já se transformou preconceito por parte de algumas pessoas que entendem que uma variante é melhor que as outras, desprestigiando pessoas com o sotaque ou variante diferente do seu, a presença do preconceito é muito comum na fala chamada caipira, ou de grupos nordestinos, isto são os chamados preconceitos linguísticos, nesse sentido, e ele deve ser combatido. As diferentes variantes de uma língua devem ser vista como algo rico culturalmente, e que faz parte da identidade de cada um. Seria muito interessante se existisse em sua sala de aula uma pessoa de outra etnia, ou de origem diferente da sua, seria uma excelente oportunidade para conhecer uma cultura diferente.


 

 

pesquisa

Professor, comente com os alunos que para entender mais sobre a variação linguística é necessário conhecer as variedades linguísticas próprias da sua região.

Peça que em grupos, façam uma pesquisa de campo com o objetivo de identificar as variedades que constituem o modo de falar da sua comunidade. Lembre-os que não se esqueçam que tais variantes estão estreitamente ligadas a cultura de um povo e que tal cultura merece muito respeito. Dessa forma, organize um roteiro de perguntas a serem utilizadas na entrevista privilegiando questões sobre cultura, lugar onde viveu, onde nasceram etc.
Tal entrevista poderá ser realizada gravando um áudio com celular ou gravador e poderá ser também registrada por escrito pelo entrevistador.
É importante ter em mente qual é o objetivo dessa pesquisa e o que fazer com ela em seguida. Sugiro que seja produzido um blog para o registro e divulgação das pesquisas. Peça que os alunos tirem fotografias também, sempre que possível.

 

Para fechar esta atividade mostre o áudio aos alunos para que possam entender um pouco mais sobre dialetos:

Após os alunos ouvirem, perguntem o que puderam aprender sobre a variação regionalista?

 

atividade2

Professor, vamos apresentar aos alunos outro tipo de variação linguística, a social. Comente com os alunos que além da geográfica temos a variação social, que está ligada a vários fatores sociais. E que há semelhança entre a fala de acordo com a comunidade linguística em que se está inserido, por exemplo, os falantes adequam a fala de acordo com as finalidades específicas, de acordo com a necessidade, é resultante do agrupamento de fatores sociais, como por exemplo, nível socioeconômico, grau de escolaridade, faixa etária, gênero (homem/mulher), grupos sociais, profissionais, entre outros.

Explique que há também o estilo formal – onde utilizamos uma linguagem adequada às necessidades intelectuais, há a necessidade de reflexões maiores quanto à elaboração da linguagem e do conteúdo, não tão usada no cotidiano. E o informal é mais distensa, utilizada no cotidiano, mínimo de elaboração e reflexão na construção dos enunciados, uma vez que é o uso menos elaborado da fala. A escolha da utilização de uma linguagem ou outra é adequada ao contexto, numa conversa informal usamos uma linguagem mais simples, num evento mais formal, elaboramos melhor nossos enunciados. Por exemplo, um juiz ou professor universitário utilizam a linguagem formal no tribunal ou na universidade, em uma conversa informal com os amigos ou em casa o estilo é informal.

É importante que os alunos saibam que a língua padrão ocupa um lugar de prestígio hoje em dia não pela sua elaboração ou por seguir uma gramática, mas por questões históricas, sociais e políticas que levaram seus usuários a ocuparem lugares de prestígio social na sociedade. Portanto, não vejo porque esse preconceito persistir. Diante disso não existe variante mais correta, existe sim a variante adequada a cada contexto.

Comente que para grupos específicos há falares específicos, é a variante dos grupos da mesma área ou mesma profissão como quem trabalha com informática, médicos, policiais, juízes, alfaiates, jovens, grupos marginalizados, entre outros. São os chamados jargões e as gírias.

Apresente aos alunos alguns aspectos que marcam a nossa oralidade e as diversas variantes:

Disponível em: http://educacao.uol.com.br/disciplinas/portugues/variacoes-linguisticas-o-modo-de-falar-do-brasileiro.htm. Acesso em: 17/09/2012.

Em seguida, pergunte se conseguiram identificar os exemplos em relação a nossa oralidade. Peça que citem exemplos, utilize o caderno para registrar.

Comente que entre outros aspectos temos também a existência dos termos técnicos, ou jargões que são códigos linguísticos próprios de seu determinado grupo social, portanto é de difícil compreensão de seu vocabulário por ser técnico e restrito a determinado interlocutor. Com as gírias isso também acontece. Portanto, os jargões ou variantes de grupos profissionais são linguagens restritas a determinados interlocutores.

O importante para você é que entenda que a linguagem é adequada a cada situação de comunicação, que você não pode sair por aí “carregado” de termos técnicos que são restritos a determinados grupos, pois não será entendido.

Portanto, na comunicação devemos considerar as diferentes circunstâncias de comunicação, tais como os gêneros utilizados. É fundamental a adequação ao contexto, por exemplo, se estamos num ambiente familiar, escolar ou profissional, qual é o grau de intimidade que temos com os interlocutores e também o assunto tratado. Considerando as várias situações escolhemos pela utilização da linguagem formal ou da linguagem informal.

Veja a tirinha de um personagem muito conhecido do cartunista Maurício de Souza:


Tira 1:

chico

Fonte: http://goo.gl/MZ7pe

Tira 2:

chico2

Fonte: http://goo.gl/KmUNr

 

Após a leitura dos quadrinhos, peça que observem que uma das características comuns nas histórias em quadrinhos são as marcas da oralidade, peça que observem que o diálogo apresentado está repleto delas e registre no caderno os exemplos.

Em seguida, solicite que os grupos respondam as questões abaixo em seus cadernos:

A história em quadrinhos acima está inserida em qual grupo social?

Com base na tira 1 observe a fala do pai de Chico Bento, que variante ele utiliza? E qual variante Chico Bento utiliza?

A variedade linguística usada pelas personagens é adequada ao contexto onde vivem? Houve impedimento para que você entendesse o texto?

 

Observe os dois quadrinhos e a expressão do pai no segundo quadrinho da primeira tirinha, o que ela revela?

Na tira 2, os personagens Chico Bento e Zé Lelé estão conversando, sobre o que eles falam?

No primeiro quadrinho Zé Lelé chega todo entusiasmado. Que recurso linguístico foi utilizado no texto para comprovar essa afirmação?

Levando em consideração que o personagem Zé Lelé é um menino levado que vive roubando goiabas de Nhô Lau, o que o diferencia de Chico Bento?

Se substituíssemos essa expressão Oba, oba! por Ufa, ela teria o mesmo efeito?

O que levou Zé Lelé a pensar que Chico estaria plantando uma árvore frutífera?

No segundo quadrinho o que demonstra a expressão de Zé Lelé?

Se retirarmos a pontuação da tira, teríamos o mesmo sentido?

Por que somente Chico Bento e Zé Lelé plantam as árvores? E as outras personagens?

Por que a árvore é de esperança?

O que representa o sinal gráfico no 2º quadrinho?

 

Quem é CHICO BENTO?

Chico Bento foi um personagem criado em 1961 por Maurício de Souza, em várias entrevista o autor contou que se inspirou em seu tio-avó seu, que lhe contava muitas histórias.

A primeira revista da Turma da Roça foi lançado em 1982, há ainda vários personagens como o Zé Lelé (da tirinha acima), Hiro, o Zé da Roça, Dona Marocas (sua professora), Padre Lino, Rosinha (sua namorada), um primo da cidade (sem nome) que abre uma comparação onde podemos perceber as diferenças entre campo e cidade como a fala, o conhecimento de informática, acesso a brinquedos modernos, é um típico paulistano.

Nos gibis, o personagem fictício de Chico retrata um menino do campo, anda descalço, inocente, que gosta de animais, respeita a natureza e que utiliza do dialeto caipira para se comunicar. Ele mora na Vila Abobrinha trazendo características e trejeitos de um caipira de quarenta anos atrás.

Após a discussão sobre a variante encontradas nas tirinhas acima, comente que muitas vezes tais textos são utilizados para exercícios de correção da fala do Chico Bento acentuando dessa forma o preconceito. Ressalte que a língua se molda a partir da comunidade falante e de seu contexto, daí temos as variantes linguísticas, que linguisticamente falando não são consideradas melhores nem piores que outras, nem “mais” certas ou erradas, nem feias e bonitas, mais sim um registro de sua identidade, cultura, origens, experiências etc. Ressalte com os alunos que desconsiderar a variante de um povo é desrespeitar sua integridade e também não reconhecer a identidade histórica e cultura de quem está falando.

Para esta aula é possível solicitar que os grupos alunos tragam para a próxima aula alguns exemplos de variação linguística social e geográfica. Organize os grupos e delimite quem trará o que, peça que procurem em jornais, revistas, internet, exemplos de casa, de conhecidos, e também notícias como a da Grazi para discussão sobre o preconceito linguístico. O importante é propiciar a discussão sobre tal assunto desmistificando esse assunto.

atividade3

Professor, neste momento, apresente uma breve explicação sobre variação histórica para conhecimento dos alunos:

Primeiramente, apresente a frase: ** No mundo non me sei parelha, mentre me for' como me vay, ca já moiro pro vos – e ay! ** (Quem você, tão presunçoso, pensa que é para julgar de coisas tão elevadas com a curta visão de que dispõe.")

Consegue entender o que diz a frase acima? Trata-se do português do século XII, na Idade Média.  Esse é um verso da obra de Dante Alighieri, Divina Comédia, escrita em 1189, sendo considerada por alguns como o texto mais antigo escrito em língua portuguesa.

Trata-se de uma variação histórica, acontece ao longo de um período de tempo, pode ser identificada pegando um texto escrito há séculos atrás e comparando-o com um atual. A língua falada no Brasil hoje em dia é muito diferente da língua do início da colonização, e será diferente da língua encontrada daqui uns trezentos anos. Considerando que as pessoas, as coisas, os meios de comunicação e as tecnologias mudam a língua não poderia ficar para trás. Essa mudança ao longo do tempo se chama diacrônica.

Outro exemplo disso é que até hoje encontramos livros e pessoas utilizando um vocabulário distinto do nosso, por exemplo, o uso do “ph” em algumas palavras como pharmácia em farmácia, ou palavras como adevogado, ou até pessoas mais velhas utilizando determinados nomes “estranhos” para banheiro – mitório, carro – condução, entre outros... Perguntar Solzinha...

Portanto a língua também muda com o tempo.

Vamos ao texto: A Dama do pé de Cabra, de Alexandre Herculano.

dama

A Dama do pé de Cabra, de Alexandre Herculano

Este dom Diego Lopez era mui boo monteiro, e estando ûu dia em sa armada atendendo quando verria o porco, ouvio cantar muita alta voz ûa molher em cima de ûa pena. E el foi pera la e vio-a seer mui fermosa e mui bem vistida, e namorou-se logo dela mui fortemente, e preguntou-lhe quem era. E ela lhe disse que era ûa molher de muito alto linhagem. E el lhe disse que pois era molher d’alto linhagem que se casaria com ela se ela quisesse, ca ele era senhor daquela terra toda. E ela lhe disse que o faria se lhe prometesse que nunca se santificasse. E ele lho outorgou, e ela foi-se logo com ele. E esta dona era mui fermosa e mui bem feita em todo seu corpo, salvando que havia ûu pee forcado como pee de cabra.
E viverom gram tempo, e houverom dous filhos, e ûu houve nome Enheguez Guerra e a outra foi molher e houve nome dona.
E quando comiam de suum dom Diego Lopez e sa molher, asseentava el a par de si o filho, e ela asseentava a par de si a filha da outra parte. E ûu dia , foi ele a seu monte e matou ûu porco mui grande o trouxe-o pera sa casa e poseo ante si u siia comendo com sa molher e com seus filhos.
E lançaram ûu osso da mesa,e veerom a plejar ûu alão e ûa podenga sobr’ele em tal maneira que a podenga travou ao alão em sua garganta e matou-o.
E dom Diego Lopez, quando esto vio, teve-o por milagre, e sinou-se e disse: Santa Maria val, quem vio nunca tal cousa! E sa molher, quando o vio assi sinar, lançou mão na filha e no filho, e dom Diego Lopez travou do filho e nom lho quis leixar filhar. E ela recudio com a filha por ûa freesta do paaço, e foi-se pera as montanhas, em guisa que a nom virom mais, nem a filha.

Livro de Linhagens do Conde D. Pedro de Barcelos.

 

Comente com os alunos que o texto traz um registro da Língua Portuguesa bastante distante da forma que usamos hoje. Este conto pertence ao “Livro de Linhagens do Conde D. Pedro de Barcelos” – filho natural/bastardo do rei D. Dinis – e foi escrito, provavelmente, entre 1340 e 1344, em português arcaico. Mesmo estando escrito em português medieval, é possível compreender que se trata de uma narrativa.

Em Portugal, a Dama do Pé de Cabra é considerada uma lenda e foi compilada por Alexandre Herculano no livro Lendas e Narrativas.

Como o próprio nome já diz - português medieval -, ele está ligado a Idade Média, uma época onde a sociedade passava por uma significativa transição cultural  e econômica – havia uma grande influência cultural por meio da quantidade de pessoas que transitavam -, incluindo assim uma transição linguística. As construções fonéticas era outras, não utilizavam os recursos estilístico-gramaticais que temos hoje. Os textos se desenvolviam a partir da oralidade, eram registrados através de ditados para serem lidos em voz alta posteriormente, observem que o registro escrito está ligado à fonética, ou seja, a produção fidedigna do som, tornando assim a interpretação mais difícil hoje em dia.

Quando conhecemos o contexto de produção de uma obra, ou seja, a sociedade que escreveu, época em que foi escrito e fatores que influenciaram, temos maior facilidade no seu entendimento.

Em seguida, apresente as questões abaixo para discussão entre os grupos e apresentação em sala de aula.

Você teve dificuldades para o entendimento do texto? Por quê?

Responda por que as línguas se modificam?

sugestoes

Sugiro uma dramatização da lenda da dama do pé de cabra, organizem os personagens, o figurino e os participantes. Pesquise a origem da história, lembre-se que o conto selecionado foi escrito no período de transição da oralidade para a escrita na Idade Média, entre os séculos XII ao XIV. Incorpore o estilo das pessoas da época, suas características e construa a peça, se preferir pode decidir por finais diferentes. É possível utilizar também a versão da história com base no site: http://www.biblio.com.br/defaultz.asp?link=http://www.biblio.com.br/conteudo/alexandreherculano/adamapedecabra.htm para a dramatização.

Para fechar essa aula, conclua que há uma relação entre língua e sociedade, uma influencia a outra, tornando-se assim impossível estudar a língua sem considerar a sociedade em que está inserida.

Explique que os textos que leram apresentam diferentes variedades da língua, provando sempre que a língua sofre constantes transformações pela ação do tempo, pela influência dos grupos sociais e também pela localização das comunidades linguísticas em certas regiões, as quais, por várias razões históricas e sociais, sofreram influência de povos, de culturas e línguas diferentes. Assim, encontramos diferentes modos de falar em uma mesma região devido às constantes migrações das populações, que acontecem por diferentes motivos. Na sua comunidade, não é diferente.

Comente que as variações são encontradas basicamente em nossos vocabulários, nas pronúncias de determinadas palavras e na estruturação gramatical. Temos inúmeras variações como a histórica, a geográfica, a variação por gêneros, a de faixa etária, as variações que dependem dos níveis de instrução, as variações urbanas e rurais, as sociais, as contextuais.

E que é importante que saibam sobre tais variantes. Em seguida, organize a turma para um trabalho final.

Em grupos de 3 ou 4 alunos, deverão pesquisar poesias do Brasil inteiro, pesquise poesias de regiões: gaúchas, mineiras, paranaense, nordestina etc. Deverão também pesquisar para ouvir as vozes e entender o sotaque desses estados na pronúncia de determinadas palavras. Para a apresentação deverão organizar uma apresentação em slides para que seja utilizada a TV Multimídia para apresentação. Antes de apresentar deverão ensaiar a dramatização e apresentar para a turma. Se quiserem selecionem algumas para apresentar esta atividade para toda a escola.

Recursos Educacionais
Nome Tipo
Língua [Além mar] Vídeo
Quadrinhos: O bidialetalismo nas histórias de gibi Animação/simulação
Que língua é essa? Episódio I - Capítulo I - Bloco 1 - Regionalismo Áudio
Recursos Complementares

Referências Bibliográficas:

ATALIBA. Como as línguas nascem e morrem? O que são famílias linguísticas?

BAGNO, M. Pesquisa na Escola: o que é, como se faz. São Paulo: Edições Loyola, 1998.

___________. Dramática da Língua Portuguesa: Tradição Gramatical, mídia & exclusão. São Paulo: Loyola. 2000.

___________. Língua de Eulália. SP: A Página Distribuidora, 2008.

___________. Preconceito linguístico. SP: Loyola SP, 1999.

___________. A norma oculta – língua e poder na sociedade. São Paulo: Parábola, 2003.

FERNANDES, M. Unificação linguística, que Clareza! Isto É / Senhor, São Paulo, 19 jun.1991, p.8.  

Conde D. Pedro de Barcelos. Quarto Livro de Linhagens ou Nobilário do Conde D. Pedro de Barcelos. A Dama do pé de cabra. 1340.

MATTOS E SILVA, Rosa Virgínia. (1991). Português arcaico: fonologia. São Paulo/Salvador: Contexto/EDUFBA.

MOLLICA, Maria Cecília. BRAGA, Maria Luiza. Introdução à sociolinguística: o tratamento da variação. São Paulo: Contexto, 2003.

TRAVAGLIA, L. C. Gramática e interação: uma proposta para o ensino de gramática no 1º e 2º graus. São Paulo: Cortez, 2002.

Revistas Discutindo a Língua Portuguesa - ano II - nº27 – 2007

Imagens:

Imagem 1 - http://zellacoracao.wordpress.com/2009/08/31/variacao-linguistica-x-ensino-de-lingua/

Sugestão de aulas:

Chico Bento e a variação linguística

http://portaldoprofessor.mec.gov.br/fichaTecnicaAula.html?aula=27231

Variação linguística na sala de aula

http://portaldoprofessor.mec.gov.br/fichaTecnicaAula.html?aula=9821

Avaliação

A avaliação deve ser diagnóstica, processual e contínua. O professor deverá avaliar desde a participação inicial das atividades, o processo de leitura dos textos, a exibição dos vídeos, a interpretação e a produção das atividades propostas.

Durante a leitura e interpretação dos textos o professor deve observar se os alunos estão utilizando os recursos linguísticos apresentados e avaliar o aprendizado das variantes linguísticas. O importante aqui é que os alunos compreendam o processo que envolve a variação linguística, os tipos de variação (geográfica, histórica e social), bem como, compreendam o preconceito linguístico tão destacado atualmente.

É importante também observar a oralidade durante as apresentações, avaliando se os alunos respeitam os turnos de fala na explanação das sínteses e nas discussões suscitadas. Avaliar também se respeitaram e utilizam a linguagem adequada ao gênero e a produção e envolvimento nas atividades propostas.

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Opiniões

  • DANUSA MARINS FERREIRA, E M JORNALISTA ALBERTO TORRES , Rio de Janeiro - disse:
    danusa.ferreira21@gmail.com

    21/02/2014

    Cinco estrelas

    Ótima!


  • Sandra, Colégio Estadual , Goiás - disse:
    sandrajmenezes@hotmail.com

    03/02/2014

    Cinco estrelas

    Ótimo material! Estou usando! Parabéns!


  • marcilio alves dias, JOSE MARTINS RODRIGUES EEFM , Ceará - disse:
    dias.marcilio6@gmail.com

    14/06/2013

    Cinco estrelas

    Esta aula tem total importancia pois muitas das vezes vemos coleguinha zombando um dos outros por questoes de dizer que seu colega esta falando errado e que muitas das vezes esta modo de falar lever em conta a comunidade onde eles moram e o dialeto que é utilizado pelos moradores de certa localidade.


  • Cláudia, Escola Muncipal Do , Minas Gerais - disse:
    claudia.cars@hotmail.com

    04/06/2013

    Quatro estrelas

    Gostei muito da aula. Vou usá-la para ilustrar um trabalho no curso de Mídias na Educação.


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