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Edição 66 - Arte na Escola
23/01/2012
 
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Rosa Iavelberg (USP): ensino de artes deve articular teoria e prática

A formação do professor de arte precisa ser prática e teórica

A formação do professor de arte precisa ser prática e teórica

Autor: Arquivo pessoal


Doutora em artes e mestre em educação, Rosa Iavelberg é professora da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo (USP). Coordenadora do setor educativo do Centro Universitário Maria Antônia, órgão de extensão universitária e cultura ligado à USP, também coordena o curso de especialização As linguagens da Arte, da Pró- Reitoria de Cultura e Extensão da mesma universidade. Graduada em arquitetura e urbanismo, é uma das autoras dos Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN) na área de artes.

Nesta entrevista ao Jornal do Professor, ela defende que o ensino de artes deve articular teoria e prática. “O que se aprende no teórico afeta o que se faz na prática criativa e vice-versa”, afirma.

Em sua opinião, o professor de artes deve ter formação teórica e prática para que as aulas de artes sejam plenas e cumpram o seu papel curricular. “Saber como os alunos aprendem para orientar o ensino e ter vivências em práticas artísticas nas linguagens que ensina é fundamental”, ressalta.

Jornal do Professor – Por que é importante que o ensino de arte faça parte do currículo escolar?

Rosa Iavelberg – Arte é uma forma de conhecimento e expressão. Seu ensino tem como objetivo garantir aos alunos acesso ao patrimônio cultural e histórico e possibilitar atos de criação e conhecimento em diferentes linguagens da arte. Fazendo e conhecendo arte na escola o aluno se reconhecerá como leitor competente das obras dos artistas e valorizará o papel da arte na sociedade e na vida dos indivíduos.

JP – O que deve ser ensinado?

RI – O currículo pode priorizar conteúdos advindos da arte brasileira e de diversos povos e culturas, sem hierarquias de valor, contanto que os recortes selecionados tenham qualidade artística e estética. O fazer e o conhecer arte devem estar associados no desenho curricular.

JP – As aulas de artes ainda são vistas como um conteúdo secundário pelos gestores e professores no Brasil?

RI – No Brasil, a arte foi ensinada nos moldes da escola tradicional com cópia de modelos e treino de habilidades. Ensinou-se também no paradigma da escola renovada com foco na livre expressão e, atualmente, considera-se a influência da cultura no ensino de arte. A terminologia acompanha os avanços da arte e da educação. O termo “educação artística” esteve relacionado às orientações da escola renovada, na crença da livre expressão e da não interação da criança e do jovem com a arte dos adultos na aprendizagem em arte. Hoje está muito difundida a terminologia inscrita nos Parâmetros Curriculares Nacionais: Ensino de Arte. Tal concepção está de acordo com a inserção de arte no currículo como área de conhecimento como as demais, com conteúdos próprios. Acredita-se que a aprendizagem em arte se dá por intermédio de atos criativos nas linguagens da arte associadas à interação com a produção social e histórica da arte.

JP – Como deve ser o ensino de artes nas escolas públicas? Há uma divisão de conteúdo para o ensino fundamental e ensino médio?

RI – Não existe uma proposta diferente para escolas públicas e privadas. O ensino de qualidade é um só, parte-se do que os alunos trazem como saber para ensinar o que ainda não sabem na área de arte. Teoria e prática articulam-se na aprendizagem da arte, o que se aprende no âmbito teórico afeta o que se faz na prática criativa e vice-versa. Conhecer a produção dos artistas na história situa o aluno no universo da arte. Evidentemente os conteúdos adequam-se ao ciclo escolar, principalmente no tratamento didático que se dá a eles. Pode-se ensinar arte contemporânea brasileira, por exemplo, desde a educação infantil até o ensino médio. A seleção de conteúdos, as obras selecionadas e o planejamento das sequências didáticas são regulados pelos conhecimentos anteriores dos estudantes e suas possibilidades de aprendizagem. Assim sendo, para cada ano existem expectativas de aprendizagem diferentes em crescente complexidade ao longo da permanência na escola.

JP – Qual a formação que um professor de artes deve ter?

RI – A formação do professor precisa ser prática e teórica. Conhecer arte, ter domínio didático em arte, ou seja, saber como os alunos aprendem para orientar o ensino e ter vivências em práticas artísticas nas linguagens que ensina é fundamental. Um professor que não tem experiências de criação em arte, não tem hábitos de frequentar exposições, espetáculos, apresentações e que não frui arte no cotidiano, não saberá orientar o percurso de criação e despertar o entusiasmo dos alunos por conhecer arte.

JP – Arte implica em várias formas de expressão, como desenho, pintura, dança, escultura, teatro, arquitetura, música. A escola deve escolher entre as linguagens ou abordar todas?

RI – São muitas as linguagens da arte, elas se diferenciam entre si e por vezes estão relacionadas como, por exemplo, a linguagem arquitetônica e a do desenho. A escola deve priorizar o ensino do maior número de linguagens que puder, contanto que elas possam ser aprendidas com profundidade em sua especificidade. Em razão do tempo didático sabe-se que muitos conteúdos e muitas linguagens ao mesmo em um projeto tornam precária a aprendizagem e impedem que se cumpram as expectativas de apreensão de conhecimento.

JP – O ensino de arte no Brasil segue parâmetros de países que despontam em qualidade na educação?

RI – O ensino de arte no Brasil, em termos de pesquisa e produção de conhecimento na área, não fica atrás dos países avançados em educação. Entretanto, existe um vão a ser diminuído entre as proposições teóricas e sua difusão na maioria das escolas. As principais faltas são a formação dos professores, a valorização da profissão, a inserção da arte no currículo com o mesmo valor das demais disciplinas e a articulação do que se ensina nas escolas com as práticas sociais em arte. Faltam nas escolas, sobretudo, materiais para práticas artísticas, informativos sobre arte (livros, vídeos, CDs). Falta também tornar curricular a visita a museus, a feiras de arte, a ateliês de artistas, a estúdios de artistas gráficos, a escritórios de arquitetos, a estúdios de músicos, a espetáculos de teatro e shows de música.

JP – Como o professor pode aproveitar as novas tecnologias para aproximar o ensino de arte dos alunos?

RI – A tecnologia, além de possibilitar mais meios de criar e de acessar informações sobre arte, aproxima os jovens de seus interesses, expande o contato com a produção artística do mundo todo.

JP – Precisamos avançar em política pública para a área de artes?

RI – Sim. É necessário expandir o tempo didático para cada linguagem (teatro, dança, música, artes visuais) que é ensinada e investir na formação dos professores com práticas artísticas de criação, conhecimento dos processos de aprendizagem em arte e da produção social e histórica da arte.

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