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Edição 14 - Filosofia na Escola
14/02/2009
 
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Crianças aprendem a filosofar desde cedo

Autor: Arquivo pessoal


Quem melhor do que as crianças para, naturalmente, olhar o mundo como se fosse a primeira vez, se surpreendendo e se atrevendo a perguntar por que as coisas são do jeito que são? Estudiosos de uma metodologia criada pelo filósofo Matthew Lipman, em 1960, acreditam que mais do que ensinar a história da filosofia e suas teorias, o importante, com as crianças, é estimular o pensamento.

A metodologia está sendo aplicada em escolas públicas e privadas brasileiras há mais de 20 anos. Há experiências em várias cidades do interior de São Paulo como Lorena e Campos do Jordão, em São José (SC), Ilhéus (BA), Brasília (DF), Estremoz (RN) e Cariacica (ES).

Mais recentemente, o projeto foi realizado no Rio de Janeiro. No ano passado, a professora Vanise Dutra Gomes decidiu encarar o desafio proposto por um grupo de estudos da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ). Formada em pedagogia, ela utilizou o método de Lipman com os alunos da segunda série da Escola Municipal Joaquim da Silva Peçanha, localizada em Duque de Caxias (RJ).

Para iniciar o projeto, a escola reformou uma sala inteira. Uma vez por semana a professora Vanise se direcionava com uma turma de 25 alunos para o que logo se tornou a “sala do pensamento”. “Pintamos a sala de lilás porque estimula o pensamento e colocamos pufes para as crianças sentarem em círculo”, conta. Parte do currículo escolar, a disciplina durava em média 60 minutos, durante os quais as crianças se sentiam mais à vontade para discutir os mais variados temas.

Com a ajuda de textos, músicas, obras de arte e expressão corporal, a professora trazia de forma lúdica temas como preconceito, vida, quem somos, vontade, morte, entre outros. “A gente tem que ser professor e artista, ao mesmo tempo, porque ao ensinar filosofia não basta planejar a aula, temos que estar preparados para o imprevisto nas discussões”, explica. Segundo ela, inicialmente, as crianças tinham dificuldade para formular as perguntas e para prestar atenção nos argumentos dos demais alunos. Porém, no decorrer do curso, a evolução dos diálogos foi natural.

De acordo com Vanise, além de desenvolver a comunicação dos estudantes, o ensino da filosofia melhorou a escrita, a leitura e o funcionamento da sala de aula. Ao longo do ano, ela mesma reviu as próprias regras de convivência que havia estabelecido com a turma no início do ano. “Eu pensei que estava sendo democrática, mas na verdade estava sendo autoritária porque aquelas regras não tinham sido discutidas antes com os alunos e, sim, impostas por mim”, afirma. Empolgada com a experiência, ela decidiu aprofundar seus conhecimentos e fazer um mestrado para estudar o ensino da filosofia para crianças.

Coordenador do Núcleo de Estudos Filosóficos da Infância (NEFI) da UERJ, o professor Walter Omar Kohan destaca que o principal objetivo da metodologia de Lipman é justamente propiciar as condições para que a criança filosofe. “Trata-se de um método rigoroso baseado numa forma de “comunidade de investigação”, um espaço democrático de troca de idéias, onde todos têm o mesmo direito à palavra e que deve orientar a formação de pessoas que pensem de forma crítica, criativa e com cuidado a realidade que os rodeia”, elucida.

Kohan ressalta que os professores devem observar em primeiro lugar seu próprio papel. “Eles não devem pensar que são os detentores do saber ou das respostas verdadeiras. O ideal é que estejam mais propícios simplesmente a cuidar que a investigação flua de maneira cooperativa e profunda”, explica. Para ele, o mais importante para poder ensinar filosofia às crianças é apresentar sensibilidade filosófica e atenção à infância das crianças.

Segundo Kohan, o método criado por Lipman não é o único. Há outras metodologias que de forma geral respeitam os seguintes princípios: a pergunta, como forma de abrir e problematizar idéias, saberes e valores; o debate participativo, como forma de construir coletivamente saberes; a crítica radical, como modo de compreender e avaliar pressupostos e implicações; o diálogo, com e contra uma história de perguntas e pensamentos filosóficos; a criação, que permita a irrupção de novos conceitos; a resistência, como prática reflexiva de autonomia e de liberdade.

(Renata Chamarelli)

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